quinta-feira, 3 de abril de 2008

O FIM DA ERA FIDEL.

Adorado por grande parte da população cubana - não discutirei aqui tais razões -, odiado por um expressivo número de cidadãos norte-americanos, por ter derrubado o líder do movimento pró-Estados Unidos, Fulgêncio Batista, em 01/01/1959 e, principalmente, respeitado pela maioria da população mundial em função de sua condição de líder de uma das derradeiras ditaduras remanescentes do último século, Fidel Castro anunciou nesta terça-feira que não voltará a governar o país.

Através de mensagem publicada no jornal oficial do Partido Comunista Cubano, o Granma, Fidel disse que não aceitará o cargo de Presidente do Conselho de Estado, para o qual vinha sendo eleito e ratificado desde 1976. O ditador baseou tal decisão em suas condições físicas, sendo que estava afastado do cargo há um ano e meio para tratar de problemas de saúde. Na nota, Fidel diz "não me despeço de vocês, desejo apenas combater como soldado das idéias", afirmando ainda que continuará escrevendo no Granma.

Fidel comandou o regime cubano como primeiro-ministro por 18 anos, passando à Presidência do país por escolha da Assembléia, eleita após a aprovação da Constituição Socialista de 1976. Desde agosto de 2006, estava afastado em virtude de uma operação, razão pela qual delegou suas funções ao irmão, Raúl Castro, que comanda o regime desde então.

Hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que já havia notado uma certa movimentação política em Cuba, na última vez que foi visitar Fidel Castro, o qual qualificou como “o único mito vivo da história da humanidade". Já o presidente norte-americano, George W. Bush, disse que "esse deve ser o começo de uma transição democrática para o povo de Cuba". Bush também disse esperar que o país possa em breve ter "eleições livres e justas, não o tipo de eleição organizada pelos irmãos Castro", além de pedir a libertação dos presos políticos mantidos pelo regime cubano. "São pessoas que foram colocadas na prisão porque ousaram falar o que pensam". Ele afirmou ainda que "os Estados Unidos vão ajudar o povo de Cuba a conseguir sua liberdade" (espero que não seja da mesma forma como Bush vem tentando fazer no Iraque).

A China saudou o 'dirigente revolucionário e velho amigo', manifestando o desejo de que ambos os países comunistas mantenham as boas relações. "O presidente Castro é um dirigente revolucionário profundamente amado pelo povo cubano e também um velho amigo do povo chinês", aduziu o ministério chinês das Relações Exteriores em um comunicado. O secretário de Estado francês para Assuntos Europeus, Jean-Pierre Jouyet, disse que "espera que o país siga pelo caminho da democracia". Segundo ele, Castro "não entendeu as evoluções do mundo nos anos 70 e 80". Entretanto, o secretário de Estado francês reservou alguns elogios ao líder cubano, ao afirmar que "garantiu uma certa independência frente à forte presença dos Estados Unidos na região".

O secretário de Estado de Exteriores da Itália para a América Latina, Donato Di Santo, pediu para as autoridades cubanas iniciarem "uma transição democrática" no país. Ele qualificou a decisão do líder cubano como um gesto "importante, nobre e esperado, tanto dentro como fora da Ilha". Segundo um porta-voz do primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, "há agora uma oportunidade para fazer progressos para uma transição pacífica e uma democracia pluralista em Cuba", mas "estes são assuntos que competem à população cubana". Já o alto-representante da União Européia para Política Externa, o espanhol Javier Solana, disse esperar que a renúncia de Fidel leve Cuba a um processo de transição que seja "pacífico e rápido, com conseqüências positivas para a Ilha".

O ministro de Assuntos Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos, disse que o Governo da Espanha acompanhará, ajudará e fará "tudo o possível" para que o futuro de Cuba seja "o melhor possível para todos os cubanos". Como Lula, Moratinos disse não estar surpreso com o anúncio, e afirmou que a decisão é "importante" e abre "um momento diferente" no país.

Por sua vez, a secretária espanhola para assuntos latino-americanos, Trinidad Jiménez, declarou que a renúncia de Fidel deve reforçar a capacidade de seu irmão de implementar um "projeto de reformas em Cuba". O líder dos comunistas russos, Gennady Ziuganov, disse que, apesar de sua renúncia, Fidel Castro continuará sendo o "líder nacional da Ilha da Liberdade", como Cuba era chamado na União Soviética. O presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering, manifestou sua esperança de que a renúncia de Fidel Castro à Presidência de Cuba traga "mais liberdade" ao povo cubano. "Tomara que haja uma evolução democrática" na Ilha, acrescentou o presidente da Eurocâmara.

Na América Latina, o primeiro-ministro peruano, Jorge del Castillo, afirmou que, após o fim dos quase 50 anos de poder de Fidel Castro em Cuba, "é preciso fazer votos para que o processo de transferência de poder seja pacífico" e que "se oriente à vida democrática". Em entrevista a uma emissora peruana, ele afirmou que o processo de transição em Cuba deve ocorrer "em um marco de diálogo de integração" e "sem precipitações que possam originar fatos mais violentos os quais ninguém deseja”.

Como se percebe, o dia de hoje ficará marcado na história como aquele que marcou o fim da era Fidel (como aquele em que quase capturaram o capitão Jack Sparrow, em Piratas do Caribe). Pelo menos teoricamente, afinal, o homem ainda não morreu e, como visto, a maior tendência é a perpetuação de um representante de sua família à frente do poder cubano.

Para encerrar, vale citar algumas célebres frases do líder cubano que, ao “pendurar as chuteiras”, deixa muitos seguidores e inimigos, adoradores e adversários. Fidel assim questionou em certa oportunidade: "Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: como é possível que Cuba em 30 anos tenha feito o que a América Latina não fez em 200 anos?”. "Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana". "Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral". "Viver acorrentado é viver na vergonha”. "A história me absolverá". Essa última, só vivendo para saber...

Nota escrita em 20/02/2008.

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